Quando a vida passa devagar e plenamente

         É cada vez mais comum ouvirmos as pessoas falando sobre o tempo estar passando muito rapidamente e sobre perceberem pouco os dias que passam em suas vidas.  Ouvindo isso e pensando que essa sensação de efemeridade do tempo muitas vezes é causada pela dificuldade maior das pessoas em estarem realmente presentes no dia a dia de suas vidas, escrevi esse post sobre o “estar presente”, um conceito simples de entender, mas ainda muito difícil de ser vivenciado.

       O estar presente é um conceito comum há muito tempo na filosofia oriental e que foi assimilado por algumas teorias psicológicas, em especial pela Gestalt Terapia, tornando-se um dos conceitos chaves dessa abordagem de psicoterapia.

       O budismo refere-se ao tempo  dizendo que a única coisa que existe é o presente. O passado não existe mais, o futuro não existe ainda, sendo um mistério, mas o agora é uma dádiva, por isto é chamado de presente, entendendo que o único momento que a vida acontece é o aqui-agora.

       A Psicologia demonstra como viver no passado ou no futuro não somente predispõe a uma qualidade de vida ruim (quando sentimos que o tempo passou voando), como também a uma série de psicopatologias.  Na prática da psicoterapia gestáltica,  é comum percebermos que, quando os pacientes vivenciam efetivamente o conceito de estarem presentes e conseguem aplicá-lo em suas vidas (especificamente quando há um transtorno de ansiedade – TOC, Síndrome do Pânico) conquistam uma forma de vida mais leve e  plena a ponto de muitas vezes curarem-se destes transtornos.

      Fritz Perls (criador da Gestalt Terapia) dizia que a ansiedade nada mais é do que a tensão entre o agora e o depois. Como não sabemos como será  o futuro, muitas vezes não conseguimos permanecer nesse vazio e acabamos preenchendo esse espaço com planos e  certezas. 

     Daí surge algo que é muito comum em pessoas com ansiedade elevada : a necessidade de controle. Elas costumam dizer “Eu tenho que planejar para ter o máximo de controle de tudo, para que nada saia errado”. E justamente essa postura acaba gerando maior dificuldade em viver no presente já que estar no presente exige uma aceitação das coisas como elas são. Quando queremos mudar as situações para que tenhamos um controle delas  já saímos desta postura de “estar presente”.  Infelizmente (ou felizmente) a concepção de que conseguimos controlar muitas coisa é uma falácia. Podemos lutar para conseguir algumas coisas, mas há tantas variáveis presentes no mundo que é humanamente impossível controlar as consequências das coisas.                   Quando vivemos no presente, aceitamos as coisas como são, aceitamos que temos limites e  que podemos sim nos esforçar para fazer nosso melhor, mas isso não significa que as coisas irão acontecer como queremos. Apesar dessa visão parecer negativa, quando conseguimos internalizar essa ideia de forma autêntica, podemos até perder o falso poder de controlar tudo,  mas ganhamos a possibilidade de  levar a vida de uma forma muito mais leve.

      Estar presente é valorizar o que temos agora: as relações que temos agora, a vida que temos agora, o trabalho que temos agora e assim por diante. Quando focamos muito em algo que não temos  - que não temos mais (passado) ou que queremos ter (futuro) estamos deixando passar a parte mais importante da vida e a única que existe que é o agora. Muitas vezes não vemos o dia passar porque estávamos em outro lugar na nossa mente e não no dia e no momento em que deveríamos estar.

        Já ouvi diversas vezes pessoas dizendo que serão felizes quando conseguirem tal coisa (pode ser um novo emprego, um novo marido, um novo carro e etc.), colocando condicionalidades externas para sua felicidade.  O  mais curioso é que quando essa pessoa consegue aquilo que ela tanto queria, nem sempre isso a torna mais feliz do que ela era antes. Isso acontece porque a felicidade só pode ocorrer  no presente e, portanto, a pessoa que não consegue ser feliz com o seu presente, dificilmente será  no futuro.  No futuro ela também terá coisas que não conseguirá. A vida por si só é limitada, nós somos seres limitados, não conseguimos fazer com que as coisas sejam da forma que desejamos, não controlamos nada. Para termos algumas coisas na vida, temos que abrir mão de outras. Isso é ser limitado, é ter possibilidades limitadas.

          Por isso  acredito que a verdadeira felicidade é conseguir viver no presente. Ninguém que viva em outro lugar que não no aqui-agora pode ser feliz. Acredito fortemente que a felicidade está nas pequenas coisas do nosso dia.  Somos acostumados a pensarmos em encontrar a felicidade em grandes momentos, em ocasiões significativas da nossa vida, mas a vida de quase todo mundo tem poucos momentos como esses e sim um montão de momentos cotidianos Por isso, entendo que encontrar a felicidade nesses momentos é a chave para ser feliz sempre.

         Uma das formas para conseguir isso é aproveitar o seu dia como se fosse único, utilizando o lema “só por 24 horas”. Imagine que o amanhã não existirá e que você só tem esse dia à sua disposição, que você só poderá aproveitar essas pessoas que você tem ao seu redor neste dia, essas atividades, esses locais que são possíveis de você acessar neste dia.  Quanto mais treinarmos essa atitude, menos iremos fantasiar, pensar em outras pessoas, em outras situações e aproveitaremos muito mais o hoje.

          Outra forma que a Gestalt nos ensina para viver mais no presente é ampliar o nosso nível de consciência, aumentando nossa percepção do que há no agora, tanto a percepção interna como externa.  A percepção externa inclui perceber efetivamente as coisas ao seu redor. Como é a rua pela qual você passa quando vai ao trabalho? Qual a comida que está comendo? Como são as pessoas que você encontra? Como é o local onde você está?

          Já a percepção interna é conseguir realmente observar o que se passa dentro de você. Seguir o  continuum de consciência, em que você observa e entra o máximo em contato com o que está acontecendo com você no aqui agora -independente do que for- torna as pessoas muito mais presentes em tudo.  É surpreendente o quanto as pessoas estão pouco acostumadas a observar como sentem seu corpo e suas emoções. Algumas vezes estamos irritados, tristes ou incomodados, mas não paramos para perceber o que está acontecendo realmente internamente.  

           No livro “Tornar-se Presente” de John Stevens há uma série de técnicas de aumento da consciência do presente que podem ser aplicadas. Uma das mais simples é a de ampliar a consciência através de uma tarefa diária. “Escolha alguma tarefa diária tal como lavar louça, escovar os dentes, levar o lixo para fora etc... Realize a tarefa e preste atenção a como seu corpo se sente... Faça-a mais devagar por alguns minutos  a fim de ter mais tempo para se conscientizar do que se passa com você... Observe se está prendendo ou mexendo o corpo de forma desconfortável ou desajeitada. Então exagere essa tensão ou falta de jeito, tenha-a mais presente, experiencie-a realmente... Agora prossiga e explore outras formas de fazer a mesma tarefa, formas que sejam mais confortáveis e agradáveis... Tente deixar seus movimentos fluírem... Permita que eles se transformem lentamente em uma dança, e aprecie essa dança. Focalize-a com sua percepção e explore-a como um território novo; para a maioria de nós é realmente um território novo” (Stevens, 1988, p. 35).

        Há diversas outras técnicas que podem ser utilizadas para favorecer esse continuum da consciência. Contudo, estar no presente é muito mais do que técnicas ou momentos de meditação aprofundada.Viver no presente é um processo de autoconhecimento, de abrir mão do controle, de deixar de querer estar em outro lugar (passado ou futuro) e de aceitação genuína da realidade.               Para iniciar essa processo, o convido a fazer isso durante um dia inteiro: estar inteiramente presente em tudo que estiver fazendo: no seu café da manhã, lavando louça,  nas sensações que o banho lhe traz, no caminho de sua casa ao trabalho (observe o que há ao redor que você nunca tenha olhado), no que você sente com cada pessoa que você encontra no seu dia, no que você está sentindo em algum momento em que não estiver bem... como se o mundo fosse somente aquele momento. Você logo perceberá que, mesmo sem fazer nada de diferente,  sua vida ficará muito mais intensa e, ao final do dia, você terá tido tantas sensações, que perceberá que seu dia foi bem longo.

 

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